Vergonha é filha do medo — do medo de não sermos aceitos, amados, reconhecidos, pertencentes. Essa emoção, que queima por dentro sem fazer barulho, nos paralisa antes mesmo de conseguirmos nomeá-la. Ela se esconde nos silêncios, no olhar que evita, no corpo que encolhe. Quando damos por nós, já estamos tentando desaparecer.
Aprendemos cedo que certas partes de quem somos não são bem-vindas. Ainda na infância, pequenos gestos nos ensinam que ser espontâneo pode ser perigoso. O olhar distante da mãe, a risada dos colegas diante de um erro, a repreensão por termos ido “longe demais”. Aos poucos, passamos a acreditar que mostrar quem somos pode resultar em rejeição. E onde há esse risco, nasce a vergonha.

A vergonha se disfarça para sobreviver
Uma das características mais marcantes da vergonha é a sua capacidade de se camuflar. Ela dificilmente se apresenta com clareza. Na maioria das vezes, aparece como timidez, raiva, ansiedade, irritação repentina ou até aquele riso nervoso que tenta abafar o desconforto. Em outras palavras, ela encontra maneiras de existir sem ser percebida.
Ela também pode se transformar em comportamentos de fuga ou compensação: o isolamento social, o excesso de controle, a necessidade constante de aprovação, a apatia. Tudo isso são formas inconscientes de tentar escapar da dor de ser visto de forma vulnerável. Afinal, a vergonha não quer apenas esconder o que sentimos — ela quer evitar o julgamento que imaginamos que virá.
O impacto da vergonha no corpo e na mente
A neuropsicologia mostra que a vergonha ativa regiões do cérebro ligadas à dor física. Ou seja, não se trata apenas de um desconforto emocional. O corpo registra a vergonha como um alerta de perigo. Isso explica por que muitas pessoas, mesmo anos depois, ainda se lembram com exatidão de situações constrangedoras vividas na infância ou adolescência.
Com isso, criamos barreiras internas. Desenvolvemos filtros que tentam evitar qualquer exposição emocional. Porém, essa tentativa de proteção pode gerar um alto custo: viver com medo constante de não sermos bons o suficiente. E, consequentemente, deixar de ocupar espaços importantes por receio de nos revelarmos demais.
O que a vergonha revela sobre o que acreditamos sobre nós mesmos?
A vergonha só se mantém viva quando há dentro de nós a crença de que existe algo errado na nossa essência. Essa ideia de que precisamos esconder partes do que somos vem da sensação — aprendida — de que nosso valor depende da aceitação alheia. Logo, se o outro não nos valida, achamos que não merecemos ser amados, vistos, pertencentes.
Mas e se, ao invés de tentar nos esconder, decidíssemos olhar para essa vergonha com mais compaixão? E se, ao notar sua presença, perguntássemos: “O que em mim eu ainda não aceitei?” A vergonha, por mais desconfortável que pareça, pode ser um convite. Um sinal de que há algo em nós pedindo acolhimento — não correção.
Um espaço seguro para curar o que ainda machuca
Na terapia, especialmente na abordagem cognitivo-comportamental, é possível identificar os gatilhos que ativam a vergonha e as crenças distorcidas que a sustentam. Quando acolhemos essa emoção sem julgamento, abrimos espaço para que ela nos conte algo valioso. E, com o tempo, passamos a construir uma relação mais gentil com aquilo que antes queríamos esconder.
Técnicas como EMDR e Brainspotting, quando utilizadas em conjunto com a TCC, oferecem caminhos ainda mais profundos para trabalhar a vergonha que se instala no corpo. Essas abordagens permitem acessar memórias precoces, muitas vezes implícitas, que sustentam o medo de sermos rejeitados. Ao reorganizar essas experiências, a mente se liberta de padrões que antes pareciam impossíveis de mudar.
Aceitar quem somos é o primeiro passo para sair da vergonha
O caminho para fora da vergonha começa quando escolhemos nos aceitar exatamente como somos. E isso não significa nos acomodar com tudo o que somos hoje, mas reconhecer que não precisamos merecer valor — nós já o temos. Quando deixamos de viver à espera da validação externa, começamos a nos mover com mais liberdade, mais verdade e menos medo.
Aceitar-se não é o mesmo que nunca mais sentir vergonha. Mas é olhar para ela com firmeza e dizer: “Eu sei de onde você veio. Mas eu não preciso mais me esconder.”
Sou Betila Lima – Psicóloga
Formada em Psicologia desde 2007, com formação em Neuropsicologia, Terapia Cognitiva Comportamental, Terapia de EMDR e Brainspotting.
📷 Siga no Instagram: @BetilaLima
✉️ Clique e entre em contato
📱 +55 21 99533 1109
https://www.apa.org/topics/shame (American Psychological Association – sobre vergonha)
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6326550/ (estudo neurocientífico sobre vergonha e processamento emocional)