Quando a carência se disfarça de liberdade: o autoengano que mascara feridas emocionais

Quando a carência se disfarça de liberdade: o autoengano que mascara feridas emocionais

Não era liberdade. Era carência, dissociação e ausências. À primeira vista, parecia autonomia, leveza, desprendimento. Mas, na verdade, era um mecanismo de defesa cuidadosamente construído para suportar aquilo que doía demais para ser encarado de frente.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer: nem tudo o que chamamos de escolha é realmente escolha. Muitas vezes, é apenas a melhor forma que o nosso sistema encontrou de sobreviver ao que faltou, ao que foi ferido, ao que não pôde ser nomeado.

Quando a carência se disfarça de liberdade: o autoengano que mascara feridas emocionais

O que a neuropsicologia nos revela sobre dissociação emocional?

A dissociação é um fenômeno complexo e, em muitos casos, inconsciente. Ou seja, a pessoa não percebe que está se afastando de si mesma para conseguir suportar a vida. De acordo com a neuropsicologia, quando a dor é intensa e repetida, o cérebro ativa mecanismos de proteção que nos desconectam das emoções como forma de autopreservação.

Assim também, o excesso de independência, a recusa em criar vínculos profundos e a rejeição à vulnerabilidade podem ser sinais claros de alguém que aprendeu a sobreviver sozinho porque, no passado, depender foi perigoso. Ou seja, o “não preciso de ninguém” pode, na verdade, ser um “ninguém esteve lá quando eu precisei”.

Como a carência molda comportamentos disfarçados de autonomia?

Ainda mais, muitos padrões que nomeamos como liberdade são, na realidade, expressões de carência emocional não reconhecida. Por exemplo: a pessoa que diz amar estar sozinha pode estar apenas evitando o risco de ser rejeitada. Aquela que evita compromissos profundos pode estar fugindo da dor de ser abandonada novamente.

Logo, o comportamento não nasce do presente, mas da memória emocional que se formou em contextos de ausência e de dor. Sendo assim, a “liberdade” se torna uma armadura. E o mais perigoso: uma armadura que a própria pessoa acredita ser parte de sua essência.

Contextos traumáticos reativam traumas antigos?

Sim. E com força. Frequentemente, situações atuais que parecem banais podem reativar traumas antigos, especialmente quando envolvem sentimentos de rejeição, abandono ou invalidação. Isso significa que o presente se mistura com o passado e, sem perceber, a pessoa começa a reagir de forma desproporcional ou desconectada da realidade.

Em outras palavras, ela não está respondendo apenas ao agora, mas a um acúmulo de feridas que seguem abertas, mesmo que escondidas sob o nome de liberdade, desapego ou força.

Como a terapia cognitivo-comportamental ajuda a identificar esses padrões?

Na terapia cognitivo-comportamental, esses padrões são cuidadosamente observados e questionados. O objetivo é identificar as crenças centrais que estão por trás do comportamento atual. Por exemplo: “sou melhor sozinha” pode ser uma crença criada após inúmeras vivências de negligência emocional.

Por isso, o processo terapêutico ajuda a pessoa a entender que, muitas vezes, ela não está fazendo escolhas verdadeiras, mas apenas reagindo com base em feridas antigas. A partir disso, começa um caminho de reconstrução interna – onde a liberdade deixa de ser um escudo e passa a ser um espaço real de escolha.

A maior lição que a vida pode ensinar sobre carência e liberdade

Dessa forma, talvez a maior lição que a vida possa nos ensinar é que liberdade verdadeira não é ausência de laço, mas presença de consciência. É saber que você pode se vincular sem perder a si mesmo. Ter coragem de depender de alguém sem sentir que isso é fraqueza. E aceitar que precisar também é humano.

Analogamente, a neurociência tem demonstrado que vínculos afetivos seguros são fundamentais para o bem-estar mental. Relações autênticas ajudam a regular o sistema nervoso, reduzem os níveis de cortisol (o hormônio do estresse) e fortalecem áreas cerebrais associadas à empatia, resiliência e tomada de decisões. Isso mostra que autonomia não é sinônimo de isolamento, e sim de escolha consciente.

Finalmente, quando a terapia cognitivo-comportamental é combinada com abordagens como EMDR e Brainspotting, o trabalho se aprofunda ainda mais. Essas técnicas facilitam o acesso a memórias armazenadas de forma traumática, permitindo que o corpo e o cérebro liberem cargas emocionais acumuladas. Como resultado, a pessoa consegue se reconectar com seu verdadeiro eu, sem precisar mais viver na defensiva.

Agora sim: liberdade. Não como fuga, mas como reconexão.

Porque ser livre não é fugir de vínculos, é poder escolher estar – consigo, com o outro, com a vida – sem medo de perder a si no processo.

Sou Betila Lima – Psicóloga

Formada em Psicologia desde 2007, com formação em Neuropsicologia, Terapia Cognitiva Comportamental, Terapia de EMDR e Brainspotting.

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