Desde pequenos, nos dizem quem somos. Em primeiro lugar, são os adultos que nos nomeiam: “Você é tão bonzinho”, “Ela é mandona”, “Ele é tímido demais”, “Você só faz besteira”. Com o tempo, essas palavras deixam de ser apenas opiniões alheias e passam a habitar silenciosamente o nosso senso de identidade. Ou seja, o que era externo se torna interno – é nesse ponto que nasce a internalização.
A princípio, pode até parecer inofensivo. Mas internalizar padrões, rótulos e expectativas que não foram escolhidos conscientemente é abrir mão da própria essência. A alma se encolhe tentando caber em moldes que muitas vezes nem fazem sentido. E quanto mais cedo isso acontece, mais difícil se torna distinguir o que é verdade pessoal daquilo que foi imposto.

Como a internalização molda a identidade?
Internalização é o processo pelo qual absorvemos mensagens externas – muitas vezes repetidas ao longo da infância – como verdades absolutas sobre quem somos. Em outras palavras, crescemos acreditando que somos “aquilo que disseram que éramos”. Isso não acontece só com críticas, mas também com elogios e responsabilidades excessivas.
Assim como um espelho sujo distorce a imagem refletida, a internalização cria um reflexo de identidade borrado por olhares alheios. E, sendo assim, a pessoa passa a atuar papéis que não escolheu, vivendo para corresponder a expectativas e evitar rejeições.
Qual a diferença entre internalização e essência?
Enquanto a internalização se constrói a partir do que vem de fora, a essência surge do que nasce de dentro. Ou seja, a essência é o que resta quando todas as máscaras caem. É o núcleo mais autêntico, aquele que ainda pulsa mesmo após anos de silenciamento.
Por outro lado, o contraste entre as duas é o que costuma gerar conflito interno: um sentimento de vazio, inadequação ou desconexão, mesmo quando tudo parece “certo” do lado de fora. Isso acontece porque viver a partir da internalização é como seguir um roteiro onde nenhuma das falas realmente combina com a sua voz.
O que a neuropsicologia explica sobre identidade e construção do eu?
Segundo a neuropsicologia, as experiências emocionais da infância impactam diretamente o desenvolvimento de áreas cerebrais associadas à autoimagem, percepção e tomada de decisão. Ainda mais, a repetição de mensagens negativas ou limitantes ativa circuitos neurais de autossabotagem e insegurança.
Por exemplo, uma criança que constantemente ouve que é “difícil de lidar” pode desenvolver crenças de inadequação e carregar esse rótulo até a vida adulta, mesmo que os contextos tenham mudado. Dessa forma, o cérebro associa essa crença ao sentimento de pertencimento, tornando mais difícil romper com ela.
Como a terapia ajuda a diferenciar o que é essência do que foi internalizado?
A terapia é um espaço seguro para questionar as vozes que habitam dentro de nós. Na abordagem cognitivo-comportamental, investigamos os pensamentos automáticos e as crenças nucleares que moldam nossa visão sobre quem somos. Por isso, o processo terapêutico se torna uma ponte entre a pessoa que você aprendeu a ser e a que você realmente é.
Além disso, quando combinamos a TCC com métodos como EMDR e Brainspotting, é possível acessar memórias emocionais mais profundas, muitas vezes formadas antes mesmo de termos consciência plena. Isso possibilita ressignificar experiências antigas e liberar a carga emocional que nos prende a identidades falsas.
Qual o impacto de viver desconectado da própria essência?
Viver longe da própria essência é como usar sapatos apertados por anos: você até se acostuma com o incômodo, mas uma hora os machucados começam a doer. Ansiedade, crises de identidade, relacionamentos frustrantes e sensação de estagnação são sinais de que a vida está sendo vivida a partir de um personagem, não da verdade interior.
Analogamente, estudos mostram que pessoas que vivem de maneira autêntica apresentam níveis mais altos de bem-estar subjetivo, maior resiliência emocional e mais clareza nas tomadas de decisão. Isso reforça que reconectar-se à própria essência não é luxo – é necessidade para uma vida com sentido.
Qual a maior lição que podemos aprender sobre identidade?
Acima de tudo, a maior lição é que identidade não é destino, mas construção. Ou melhor: reconstrução. E esse processo começa quando você se permite olhar para dentro com honestidade e perguntar – o que em mim é eco de outras vozes? E o que, em silêncio, vem tentando emergir há tanto tempo?
A liberdade de ser não nasce do grito, mas da escuta. Escutar quem você foi antes que o mundo dissesse quem você deveria ser. Porque só quando nos livramos das camadas impostas conseguimos encontrar o que é verdadeiramente nosso.
Sou Betila Lima – Psicóloga
Formada em Psicologia desde 2007, com formação em Neuropsicologia, Terapia Cognitiva Comportamental, Terapia de EMDR e Brainspotting.
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