Você já se sentiu vivendo mais dentro da sua mente do que no mundo real? Em primeiro lugar, isso pode parecer apenas imaginação ativa, introspecção ou até um refúgio criativo. Mas, em alguns casos, é um sinal claro de dissociação – um mecanismo de defesa emocional que, quando constante, afasta você de si e da própria vida.
Às vezes, a sensação é a de estar em um lugar paralelo, quase como Alice no País das Maravilhas. Você se perde em pensamentos, teorias, possibilidades, análises… e, de repente, percebe que já não está mais tão presente na realidade.
O que é dissociação e como ela se manifesta?
A dissociação é uma desconexão entre pensamentos, emoções, corpo e ambiente. Em outras palavras, é como se uma parte de você saísse de cena para proteger a outra que não sabe lidar com a dor, com o medo ou com a confusão. Isso pode acontecer de forma sutil – como devaneios constantes, sensação de estar flutuando ou viver no modo automático – ou de forma intensa, como em casos de amnésia dissociativa.
Do mesmo modo, fugir da realidade com frequência pode parecer inofensivo no começo, mas se torna um problema quando essa fuga se torna o único modo de viver.
Quando o autoconhecimento vira fantasia?
Ainda mais, há um ponto delicado no processo de autoconhecimento: quando ele se transforma em uma nova forma de escapar. Isso acontece quando o excesso de análise, reflexão e espiritualização serve para evitar o contato com dores reais. Ou seja, você estuda, entende, lê, medita… mas não sente. Não encara. Não vive no aqui e agora.
Sendo assim, é preciso cuidado para que o mergulho interno não se torne uma caverna onde você se esconde, mas uma ponte que te conecta ao mundo com mais presença e verdade.
O que a neuropsicologia diz sobre dissociação?
De acordo com estudos neuropsicológicos, a dissociação ocorre como resposta do cérebro a experiências emocionais que geram sobrecarga. Isso significa que o sistema nervoso, diante de um trauma ou estresse prolongado, pode se desregular e adotar a desconexão como forma de autoproteção.
Além disso, pesquisas mostram que pessoas com histórico de negligência emocional ou ambientes imprevisíveis na infância têm maior propensão à dissociação na vida adulta. O cérebro aprende, desde cedo, que estar presente é arriscado – e passa a funcionar em “modo desligado” para evitar a dor.
Como a terapia pode ajudar a voltar para o presente?
Na terapia cognitivo-comportamental, o trabalho é trazer consciência para os padrões automáticos de fuga. Isso envolve identificar pensamentos dissociativos, resgatar o vínculo com o corpo e construir estratégias para lidar com emoções difíceis sem precisar se afastar delas.
Consequentemente, quando essa abordagem é combinada com EMDR e Brainspotting, o acesso a memórias traumáticas se torna mais direto, permitindo que o cérebro reorganize essas experiências de forma mais integrada. Como resultado, a presença se torna mais segura e possível.
Qual o risco de viver no “País das Maravilhas”?
Por fim, o maior risco de viver mentalmente em um mundo alternativo é perder a vida que está acontecendo agora. É deixar passar oportunidades, conexões, experiências e até curas reais, porque se está sempre um passo fora do tempo.
Enfim, sonhar é lindo, imaginar é saudável, e mergulhar em si é necessário. Mas voltar é essencial. Porque é aqui – neste corpo, neste tempo, nesta vida – que as coisas realmente acontecem.
A dissociação pode parecer leve, mas tem efeitos profundos?
Sim. À primeira vista, ela pode até parecer algo inofensivo: devaneios, distração, um “sumiço” mental aqui e ali. Porém, com o tempo, essa ausência de presença cobra um preço alto. As relações se tornam superficiais, as decisões são tomadas no piloto automático e a pessoa passa a ter dificuldade de acessar suas próprias emoções com clareza.
Analogamente, é como viver uma vida com o som abafado. Tudo parece acontecer ao redor, mas não dentro. E essa desconexão, embora silenciosa, gera impacto direto na autoestima, nos vínculos afetivos e no senso de pertencimento.
Quais são os sinais de que estou dissociando?
Os sinais de dissociação variam de pessoa para pessoa, mas alguns indicativos são comuns. Por exemplo:
- Sensação constante de estar “longe” ou distraído, mesmo em conversas importantes.
- Dificuldade de lembrar detalhes do dia ou de acontecimentos recentes.
- Sentir-se como um observador da própria vida, sem real envolvimento.
- Perceber que usa o mundo interno como refúgio para evitar decisões ou emoções.
- Falta de conexão com o corpo e com as próprias necessidades básicas.
Em outras palavras, quando a mente se torna o único lugar seguro, é sinal de que algo precisa ser acolhido e transformado.

O que pode me ajudar a me ancorar no presente?
Trazer o foco para o corpo é um dos caminhos mais eficazes. Técnicas de grounding, como respiração consciente, meditação guiada e exercícios sensoriais, ajudam a reestabelecer o vínculo com o agora. Além disso, práticas como escrita terapêutica, caminhadas conscientes e contato com a natureza também têm efeito positivo na reconexão.
Sobretudo, o apoio terapêutico é fundamental. Não apenas para reduzir os sintomas, mas para compreender a raiz da dissociação. Porque por trás do desejo de fugir, quase sempre existe uma história que precisa ser contada com segurança, sem pressa, e com presença.
Se algo dentro de você vive querendo fugir, talvez seja hora de acolher esse impulso com carinho — e perguntar por que ele está aí. Voltar para o presente pode ser desconfortável no início, mas é também o primeiro passo para viver com mais verdade, mais inteireza, mais você.
E se você sente que já passou tempo demais longe de si, talvez o agora seja o momento ideal para voltar. Você não precisa fazer isso sozinho.
Sou Betila Lima – Psicóloga
Formada em Psicologia desde 2007, com formação em Neuropsicologia, Terapia Cognitiva Comportamental, Terapia de EMDR e Brainspotting.
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