Abusos começam com brincadeiras: quando o limite do respeito é ultrapassado sem ser percebido

Abusos começam com brincadeiras: quando o limite do respeito é ultrapassado sem ser percebido

Abusos começam com brincadeiras é uma frase que ecoa com frequência nos relatos de quem viveu situação de violação emocional, física ou sexual. À primeira vista, pode parecer exagero, mas basta escutar com atenção os desabafos silenciosos de vítimas para entender como a banalização do desrespeito se camufla em risos, piadas e gestos supostamente inocentes.

A princípio, é comum que essas “brincadeiras” passem despercebidas. Um toque sem consentimento, uma piada constrangedora, um apelido vexatório — tudo isso vai se acumulando, dia após dia, criando um ambiente onde a vítima vai sendo preparada, condicionada e, muitas vezes, silenciada. Dessa forma, o que parecia insignificante no começo, torna-se o prenúncio de algo muito mais grave.

Abusos começam com brincadeiras: quando o limite do respeito é ultrapassado sem ser percebido

Como reconhecer quando a brincadeira passa do limite e virou abuso?

Em primeiro lugar, é fundamental observar como a pessoa se sente após a situação. Ou seja, se há desconforto, vergonha ou sensação de exposição, o respeito já foi violado. Portanto, ainda mais grave é quando a vítima tenta expressar esse incômodo e é ridicularizada ou acusada de exagero. Isso cria um ciclo onde o abusador se sente legitimado a continuar e a vítima passa a duvidar da própria percepção.

Além disso, é importante compreender que muitos agressores testam os limites por meio dessas brincadeiras. Ou seja, eles usam o riso como escudo, como forma de dizer “estava só brincando”, quando, na verdade, estavam sondando o terreno para ir além. Em outras palavras, a “brincadeiras” é a cortina de fumaça que encobre a verdadeira intenção.

Por que o cérebro tende a normalizar situações de abuso disfarçado?

De acordo com estudos recentes em neuropsicologia, o cérebro humano tem uma tendência natural de buscar adaptação em ambientes hostis. Logo, quando as pessoas enfrentam contextos repetitivos de desrespeito, suas mentes minimizam a gravidade das situações para preservar a integridade emocional.

Por outro lado, essa adaptação cobra um preço. A médio e longo prazo, isso pode gerar quadros de ansiedade, depressão, dissociação e até transtorno de estresse pós-traumático. Em muitos casos, a pessoa sequer associa o mal-estar atual às vivências passadas, justamente porque elas “começaram como brincadeiras”.

Como esses padrões são percebidos na terapia?

Em sessões de terapia, especialmente na abordagem cognitivo-comportamental (TCC), é comum que as memórias de abuso surjam de forma fragmentada. Inicialmente, o paciente relata pequenas situações, geralmente com certo tom de dúvida: “Mas será que foi mesmo abuso?” ou “Era só uma piada, acho que levei a sério demais”.

Entretanto, à medida que o processo avança, os padrões se revelam. O terapeuta ajuda a desconstruir crenças como “eu que permiti”, “talvez eu tenha provocado”, ou “todo mundo fazia isso na época”. Com isso, ocorre uma ressignificação da experiência, e a vítima começa a se libertar da culpa que não lhe pertence.

Contextos traumáticos reativam traumas: como isso se manifesta?

Sobretudo em ambientes familiares ou escolares, onde os primeiros episódios ocorreram, é comum que situações atuais despertem gatilhos do passado. Um comentário do chefe, um gesto de um colega, ou até uma cena em um filme pode provocar uma reação emocional desproporcional — não porque a pessoa seja “sensível demais”, mas porque há uma dor antiga sendo tocada novamente.

Analogamente, o cérebro cria atalhos para proteger o indivíduo. No entanto, esses atalhos muitas vezes resultam em reações automáticas, como isolamento, raiva ou apatia. Isso significa que o trauma não foi resolvido. Apenas enterrado.

A maior lição que a vida pode ensinar sobre esse tema

A maior lição que se pode tirar ao entender que “abusos começam com brincadeiras” é que o respeito precisa ser o alicerce de qualquer relação — pessoal, profissional ou familiar. Nenhuma piada vale o sofrimento de alguém. Nenhuma brincadeira é inocente se causa dor.

Consequentemente, aprender a identificar os sinais precoces é uma forma poderosa de prevenção. Assim também, é um passo essencial para quem deseja romper com ciclos de violência camuflada e proteger as futuras gerações.

O que a neurociência tem revelado sobre a memória de abuso?

Atualmente, a neurociência comprova que o cérebro armazena memórias traumáticas de forma diferente das demais. Enquanto memórias comuns são processadas com data, contexto e emoção, as memórias traumáticas ficam “presas”. Dessa forma, ativando reações como se o evento ainda estivesse acontecendo. Por isso, não é raro que adultos que sofreram abusos na infância revivam o trauma em situações cotidianas sem compreender a origem do mal-estar.

Esse tipo de armazenamento disfuncional da memória, identificado em exames como a ressonância magnética funcional, reforça a importância de abordagens terapêuticas específicas para trabalhar essas lembranças.

Como a terapia combinada pode ajudar na cura?

Sendo assim, a combinação da terapia cognitivo-comportamental com técnicas como EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares) e Brainspotting tem se mostrado altamente eficaz nesses casos. Essas abordagens permitem o acesso direto ao conteúdo traumático armazenado no sistema nervoso, sem a necessidade de reviver a dor conscientemente. Com isso, a cura acontece de forma mais rápida e profunda.

Por exemplo, no EMDR, a estimulação bilateral do cérebro facilita o reprocessamento da memória traumática. Já no Brainspotting, o foco ocular é usado para localizar pontos de tensão e promover a liberação emocional. Quando associadas à TCC, essas técnicas não apenas aliviam sintomas, mas promovem transformações duradouras na forma como a pessoa se vê e se relaciona com o mundo.

Como quebrar o ciclo de normalização do abuso?

Definitivamente, a conscientização é o primeiro passo. Enfim, falar sobre esse tema, educar crianças sobre limites saudáveis e acolher relatos sem julgamento são atitudes que constroem uma cultura de respeito. Como resultado, criamos um ambiente onde ninguém mais precise repetir a dolorosa frase: “todos os abusos que sofri começaram com uma brincadeiras”.

Sou Betila Lima – Psicóloga

Formada em Psicologia desde 2007, com formação em Neuropsicologia, Terapia Cognitiva Comportamental, Terapia de EMDR e Brainspotting.

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